Digite para procurar

É falsa a notícia de que em Madureira está se vendendo vacina contra Covid-19 no camelô

Compartilhar

Surgiu nos últimos dias o boato de que em Madureira, no Rio de Janeiro, vacinas falsificadas contra o Covid-19 estariam sendo vendidas no camelô a 50 reais. Mostraremos aqui que esta notícia é falsa.

O boato viralizou dia 20 de dezembro após uma publicação feita nas redes sociais pelo produtor cultural Jones MFjay,  de 58 anos.  Nela ele afirmava em tom cômico que camelôs estariam vendendo a vacina contra o Covid-19 ao preço de “um galo”, que significa 50 reais. Nos comentários, ao ser perguntado por um seguidor se era na “passarela do império” ele confirma. ”É isso aí”. Um outro seguidor questiona a veracidade da publicação e ele ironiza dizendo que  ele não parecia não conhecer muito de Madureira.

 

publicação de Jones no Facebook. - Fonte: Reprodução

publicação de Jones no Facebook. – Fonte: Reprodução

 

O que seria algo inofensivo ganhou grandes proporções. Após a publicação de Felipe Lucena, no site Diário do Rio, praticamente todos os jornais da grande mídia publicaram sobre o ocorrido como se fosse fato. Para espalhar ainda mais, a Folha de São Paulo, além de publicar sobre o assunto, republicou em inglês, para que o mundo todo pudesse saber. E parece que deu certo, vários sites internacionais replicaram o boato.

 

Mas algumas pessoas começaram a estranhar. A jornalista Paula Schmitt questionou o autor da reportagem no Diário do Rio, primeiro a publicar sobre o assunto, se ele tinha checado a informação sobre Madureira. Não obteve resposta.  A jornalista Jo Hallac também publicou sobre o assunto no Twitter, mas com mais informações. O primeiro tuíte sobre o assunto teria sido de um bolsonarista. Jô também criticou a Folha de São Paulo por publicar algo sem comprovação.

“Saudades, jornalismo. Da época em que um chefe de reportagem ia dizer bem alto. “ô fulano, pega um carro e vai lá em Madureira vie esse negócio”! E agora todo mundo acha que é mesmo verdade. E se for mentira, a história é tão boa. Vamos espalhar né. Mal não fará, na pandemia”, desabafou.

Fernando Brito, do blog Tijolaço, também trouxe mais questionamentos. Cerca de 10 dia antes, Jones MFjay já teria feito brincadeira sobre a venda de vacinas em Madureira , o que colocaria a sua atual publicação em dúvida.

Publicação de Fernando Brito no blog Tijolaço

Publicação de Fernando Brito no blog Tijolaço

Checando as afirmações

Realizamos uma busca reversa  na fotografia e não encontramos nenhum registro dela nos principais buscadores. É curioso notar que a vacina da Biotech Sinovac, produzida pelo Instituto Butantan, tem uma embalagem totalmente diferente.  A versão produzida na China tem embalagem similar à da foto, mas ainda é ligeiramente diversa. Apenas é possível encontrar embalagem idêntica em publicações falando sobre a vacinação nos Emirados Árabes e Dubai.

 

 

Procuramos pela primeira publicação sobre o boato de Madureira e encontramos a publicação no twitter de Giovanni Sandri. Entramos em contato com Giovanni e ele nos revelou que era apenas uma brincadeira e que tinha recebido do mesmo jeito a publicação em um grupo do Whatsapp. Giovanni confirma que não poderia mesmo ter presenciado o fato, pois mora em Brasília. E deixa claro que postou como brincadeira. “Esse assunto, acho que não tem muita credibilidade por ter vindo de whatsapp, twitter, piadas… Eu mesmo, mandei como piada”, conta. 

Publicação de Giovanni Sandri no Twitter

Publicação de Giovanni Sandri no Twitter

 

Mas teve muita gente que levou a brincadeira a sério.  A Anvisa, a Polícia Federal e a Delegacia do Consumidor (Decon) do Rio de Janeiro anunciaram operação para apurar essas informações. Os agentes do Decon realizaram operação no local nesta quarta-feira (23) e afirmaram não terem encontrado nada lá.

Logo começou a operação abafa nos grandes jornais. Títulos de matérias alterados e atualizações colocando a culpa nas redes sociais numa clara tentativa de se eximir de culpa. À Folha, Jones MFjay, o que fez a publicação viralizar, manteve o que disse, mas ainda em tom de brincadeira. “Só no meu país Madureira mesmo, terra de malandro”. Só que logo após a operação da polícia não pensou duas vezes, excluiu a publicação. Entramos em contato com Jones e não obtivemos resposta.

Enquanto editávamos essa matéria a Folha publicou uma errata no Twitter explicando o erro.:

Conclusão:
Embora não se tenha encontrado a foto exata de onde foi retirado o trecho utilizado, o que se pode concluir até agora é que se trata de uma notícia falsa. E essa é a conclusão preliminar apontada pela polícia. 

Na última edição do PodCast da INQ.report David Ágape conversou com a jornalista Paula Schmitt e com o geneticista Eli Vieira sobre a crise no jornalismo atual onde foram trazidos diversos questionamentos sobre qual a extensão do problema e maneiras de solucioná-lo. Confira aqui.

1 comentário