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Finalmente, algum progresso genuíno

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Estamos fazendo grandes progressos ultimamente (os reais, não os dos “progressistas”). Os viciados em soluções estatais, que não saíram daquele estado mental da adolescência ao escrever redação para o ENEM – em que é obrigatório dizer que “faltam políticas públicas” para tudo –, de repente descobriram que (1): não é legal fazer burradas com o dinheiro tomado à força dos outros (caso da UNE, que calculou gastos do MEC); e (2): é inaceitável cooptar a força monopolizada do Estado para favorecer crenças particulares (como certo programa de gravidez na adolescência de cuja eficácia eu duvido e ligação com crenças religiosas, suspeito).

Só posso cruzar os dedos e rezar para Quetzalcoatl que continuem assim, fazendo progressos cognitivos. Cedo ou tarde perceberão também que não é aceitável cooptar a força do Estado para favorecer outras crenças particulares, como por exemplo a crença de que a igualdade de direitos perante a lei significa sempre que é preciso impor “com braço forte” a igualdade de resultados, tentando manipular todo e qualquer grupo (de profissionais ou estudantes) a se parecer com uma amostra aleatória da população. Pelo contrário: como interesses e aptidões não se espalham aleatoriamente na população, impor a proporcionalidade do Censo nos resultados é punir os interessados em estar ali.

A crença de que as cotas raciais e demais exigências de “representatividade” têm algo a ver com justiça nada mais é que um credo pessoal dos progressistas, muito menos justificado do que pensam que é. Se o Estado laico é invocado para estancar a aplicação de dinheiro público na crença de que as pessoas devem se casar virgens, também deveria ser invocado contra o financiamento estatal da crença de que discriminar futuros médicos pela cor da pele na seleção de entrada na profissão é uma coisa boa.

Para presença em qualquer grupo, de grupos de fãs de uma série de TV a grupos de profissionais, o interesse e a competência não seriam mais importantes que a cor das pessoas, a genitália que têm entre as pernas, suas práticas sexuais entre quatro paredes, ou os danos que causam à balança ao subir nela? Progressistas conseguiriam progredir ao ponto de chegar à resposta elementar para essa pergunta? Pode-se sonhar…

Um dos meus casos favoritos de estadolatria progressista capturei por acaso assistindo a um noticiário local de Brasília. Estavam falando de comerciantes e artistas de rua da Asa Sul. Conseguiram uma parceria para limpar pichações: os comerciantes cedem as paredes emporcalhadas de pichações, os grafiteiros tapam as garatujas das pichações com artes vistosas. A reportagem resolveu ouvir um doutorando em miçangas da UnB a respeito dessa parceria espontânea. O que ele sugeriu? Adivinha… que o Estado enfie seu nariz neste assunto, onde não é chamado, porque se não houver governo no meio o fato não é real.

Se uma árvore cai na floresta e não existe nenhum burocrata por perto para cobrar imposto por cair sem permissão, a árvore realmente caiu? Pensem nisso.

Assuntos:
Eli Vieira

Pós-graduado em biologia molecular pela UFRGS e em genética pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, com mais de dez anos de experiência em divulgação científica e produção de conteúdo.

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