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O bom ativismo não é política identitária

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Os pensadores Helen Pluckrose e James Lindsay, liberais de esquerda, produziram uma explicação longa (traduzida por mim neste link) sobre a diferença entre o bom ativismo antipreconceito, ou simplesmente “decência”, e a política identitária, que é a febre moderna de autoafirmação de identidades coletivas, supostamente dedicada a combater preconceitos.

Tentarei aqui explicar a diferença de forma mais resumida e direta.

O bom ativismo contra a discriminação injusta propõe que, por exemplo, para contratação em algum cargo, as pessoas melhores e mais interessadas sejam as escolhidas. Ele acredita que entre essas pessoas, se o número de contratados for grande o suficiente, haverá negros, LGBT, deficientes e mulheres. Afinal, justamente por não ser preconceituoso, esse ativismo sabe que há essa diversidade entre os competentes e interessados, não necessariamente na mesma proporção que esses grupos aparecem na população em geral, pois interesses e habilidades não se distribuem uniformemente na população. O bom ativismo deseja remover as barreiras arbitrárias que esses grupos enfrentam por serem quem são, no processo de contratação especificamente. Ou seja, o bom ativismo tem uma atitude negativa contra a discriminação injusta, e objetiva, pois dependerá de avaliar a existência e a intensidade dessas barreiras.

A política identitária também deseja ver as pessoas desses grupos historicamente excluídos entre os contratados, mas inverte as coisas: quer que sejam contratados com atenção menor ou inexistente ao interesse e à competência, e total atenção ao fato de que são negros, LGBT, deficientes e mulheres. Com frequência, quer que sejam favorecidos justamente por serem negros, LGBT, deficientes e mulheres, e não por qualquer outro motivo ou atributo que tiverem como indivíduos. O nome dessa atitude da política identitária é discriminação positiva. A versão politicamente correta desse nome é ação afirmativa, mas países como o Reino Unido usam o outro nome, mais preciso.

Pessoas inteligentes que se encaixam nessas categorias favorecidas pela política identitária amiúde se sentem alvo de um tipo “benevolente” de preconceito dos seus defensores. Essa ideia foi expressada, entre outros, pelo escritor americano James Baldwin:

“Quando estou num grupo de intelectuais brancos, tenho um método para descobrir os racistas. Falo disparates. Besteira totalmente desqualificada. Depois dou apoio a isso com base em teorias da natureza mais grotescamente absurda. Se os brancos ao meu redor me ouvem com respeito e ao fim me enchem de aplausos e elogios, não tenho dúvidas: são uns malditos racistas.” (Citado por Mario Vargas Llosa em The Granta, 1984. Tradução minha.)

O que Baldwin quer é ser tratado de igual para igual entre os intelectuais brancos, por ser um intelectual ele mesmo. Não ser tratado como uma criança, ou, como as próprias crianças dizem, como um “café-com-leite”, um incapaz, alguém a ser tocado com luvas de pelica, caso contrário se estilhaça…

Na verdade, a tendência de pessoas maduras que sofreram preconceito e discriminação injusta é justamente o contrário: tendem a ser psicologicamente resilientes, não feitas de açúcar. Tendem a rir das próprias tragédias, pois o riso é terapia, ao contrário de chamar constantemente por ajuda contra piadinhas insensíveis de outrem.

O bom ativismo reconhece a resiliência e a capacidade dessas pessoas de conquistar mais e correr atrás do que almejam. A política identitária as trata como pacientes de fantasmagóricas “estruturas sociais”, pessoas sem agência, e abstrações coletivas em vez de indivíduos.

O bom ativismo é associado a gigantes como Martin Luther King Jr., Gabriela Leite, Mary Wollstonecraft, Harvey Milk. A política identitária se confunde com criaturas indignas de terem os nomes citados, como as que reclamam de meras fotos da Vogue, têm superficialidade suficiente de passar o dia comentando apenas cultura pop nas redes sociais, e têm a vida vazia o suficiente para fazer “problematizações” e chafurdar em teorias baldwinianas de natureza grotescamente absurda, como “lugar de fala”, “apropriação cultural” e ranhetice supostamente irônica contra homens, brancos e heterossexuais.

Várias das figuras da política identitária, as quais são “influenciadoras” de redes sociais, não têm os traços já comentados de resiliência psicológica, mas características marcantes de oportunistas, aproveitadores e parasitas – o que faz com que os grupos aos quais pertencem, em nome dos quais falam sem o voto de ninguém, ganhem má fama por causa desse comportamento. Ou seja, essas figuras pioram os preconceitos que alegam combater.

Portanto, não misturemos bom ativismo com política identitária. Nenhum emulsificante mistura essa água e a esse óleo.

Eli Vieira

Pós-graduado em biologia molecular pela UFRGS e em genética pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, com mais de dez anos de experiência em divulgação científica e produção de conteúdo.

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