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Clima e fogo: como o clima tem contribuído para as queimadas nas florestas brasileiras

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A América do Sul abriga a maior floresta tropical contínua do planeta e boa parte do seu território está sujeito às tempestades convectivas recorrentes, tempestades conhecidas como “de verão”, famosas por resultarem em um volume anual de chuva acumulada bastante elevado. Entretanto a porção central do continente e parte de sua borda sudeste é consideravelmente árida e sujeita a chuvas e estiagens sazonais. 

Na estação seca, os dois principais biomas do Brasil central, o Cerrado e o Pantanal, ficam propensos à ocorrência natural de incêndios, que é potencializada pela atividade humana. As bordas sudeste e sul da Amazônia também ficam mais vulneráveis a incêndios durante a época seca. Além das diferenças sazonais típicas, é necessário considerar a influência de fenômenos em maior escala, como a ocorrência de el Niño ou la Niña, bem como anomalias de circulação atmosférica ou da temperatura da superfície do mar na região do Atlântico Sul, pois tais eventos influenciam o padrão de precipitação sobre porções do continente sulamericano.

Nos últimos dois anos e meio há repetidas e prolongadas estiagens sobre porções diferentes do continente. Em geral elas estão relacionadas a variações do posicionamento e intensidade da enorme massa de alta pressão sobre a superfície do Atlântico Sul, ao el Niño e a detalhes específicos de circulação de ar em escala local e global. Quando períodos anormalmente mais secos (ou secos por um período mais longo) se sucedem, as condições propícias ao surgimento e dispersão de incêndios se tornam mais comuns. 

Houve  uma estiagem atípica a partir da segunda quinzena de maio de 2019 do norte do Paraná ao interior do Nordeste, afetando também a maior parte do Maranhão, sul e sudeste do Pará. As bordas sul e leste da Amazônia receberam menos chuva do que a média climatológica para a região durante o fim do do primeiro semestre, enquanto no centro-sul do país as chuvas retornaram à normalidade em agosto daquele ano. O segundo semestre de 2019 seguiu mais seco na região amazônica, com a estiagem se intensificando na borda sul e sudeste e ocorrendo também a noroeste: até outubro daquele ano a seca na Amazônia atingiria o norte e oeste do Amazonas, áreas do Acre e de Rondônia, parte significativa do leste e nordeste da Bolívia, sul da Colômbia e áreas do sul da Venezuela. 

A partir de outubro de 2019 a estiagem se intensificou na porção central do continente, abrangendo norte e nordeste da Argentina, Paraguai, sul e sudeste da Bolívia e a maior parte do Centro-Oeste do Brasil, do oeste da Região Sul e partes do Sudeste. Embora de dezembro de 2019 ao fim de fevereiro de 2020 a Zona de Convergência do Atlântico Sul tenha interrompido a estiagem sobre boa parte do Sudeste, nordeste do MS, GO, TO e sul da BA, do norte do Paraná e oeste de São Paulo até a interface Cerrado-Floresta na borda sul da Amazônia a estiagem persistiu e se intensificou nalguns pontos. 

Temperaturas excepcionalmente elevadas e pouca precipitação são condições propícias às nuvens de gafanhotos, que ameaçaram o país no fim do primeiro semestre de 2020 e assolaram o nordeste da Argentina, o sul do Paraguai e partes do Uruguai. Conforme a estiagem persistiu na porção central do continente, com o ano anterior já tendo sido mais seco, as condições propícias à ocorrência de incêndios se tornaram mais frequentes e os incêndios puderam se espalhar mais rapidamente, sobretudo sobre o Pantanal. 

Quanto aos fatores que influenciaram no estabelecimento desta estiagem longa sobre o interior do continente e recorrente sobre porções da Amazônia e do Sul e Sudeste do Brasil, é possível citar o el Niño, que quando atua no verão do Hemisfério Sul tende a diminuir o volume de chuva sobre a Amazônia e também do sudeste do continente (o que abrange o Sul do Brasil), intensificando a estiagem nas bordas da região amazônica no segundo semestre de 2019 e propiciando estiagem sobre o Sul e o Centro-Oeste do país no início de 2020. No início do ano se estabeleceu uma anomalia de águas mais quentes junto à costa africana, que contribui para o deslocamento da enorme massa de alta pressão sobre o Atlântico Sul, o que por sua vez propicia condições mais áridas para SP, sul de MG, MS e para o Sul do país. Com menos sistemas frontais avançando sobre o continente do meio para o fim do inverno, a estiagem persistiu na porção central do continente.

A partir de agosto de 2020 as águas superficiais do Pacífico equatorial passaram a ficar mais frias, configurando la Niña. Nesta situação, a tendência até o final do ano é que o tempo permaneça mais seco do interior de SP até a Argentina, mas provavelmente haverá trégua na estiagem sobre uma área que cobre o centro e norte de MG, sul da BA, ES e RJ, norte de GO e sul to TO. Boa parte do Cerrado e do Pantanal tendem a permanecer mais secos do que a média climatológica, então os focos de incêndio sobre o centro-sul do Brasil, nordeste da Argentina e sul do Paraguai tendem a persistir por mais alguns meses.

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