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Exclusivo: Padre gestor da Santa Casa de Sorocaba roga praga em família de empresário que fez graves denúncias envolvendo a instituição.

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Em março deste ano o programa Domingo Espetacular, da Record, apresentou grave denúncia envolvendo a Santa Casa de Sorocaba que, apesar de passar por grave situação financeira, se envolveu em uma manobra obscura para o pagamento de uma dívida com um banco — Imóveis foram leiloados a pedido da justiça, mas o vencedor do leilão ficou sem os bens. Cinco imóveis foram leiloados a pedido da justiça. Dois deles foram arrematados pelo empresário Sami Raicher que apesar de vencer o leilão, ficou sem os imóveis. Disputa já se arrasta na justiça por dois anos.

Nossa equipe foi até a Santa Casa ainda em 2019 para apuração dessas denúncias e lá fomos recebidos pelo assessor de imprensa Luiz Carlos Tanaka, conhecido como Lukas, que nos solicitou que as perguntas fossem enviadas por e-mail e que agendaria, se possível, uma conversa com o Padre Flávio, administrador da Santa Casa.

Enviamos no dia seguinte logo pela manhã e Lukas replicou que logo responderiam. Porém, num deslize, acabou enviando para nós uma mensagem endereçada ao advogado da Santa Casa, Alan Kozyreff. A mensagem, apagada rapidamente por Luiz, mas salva por nossa equipe, revelou o temor da presença de nossa reportagem.

Mensagem do assessor de imprensa da Santa Casa.

Mensagem do assessor de imprensa da Santa Casa.

 

Tentamos sem sucesso encontrar o Pe. Flávio na Santa Casa. O controlador de acesso à área administrativa nos informou que ele havia feito uma rápida passagem e que aparentava preocupação. Conseguimos falar por telefone com padre Flávio Jorge Miguel Júnior, gestor da Santa Casa. Este nos informou que faria uma denúncia de calúnia e difamação contra o denunciante e que não havia nenhuma fraude na questão do leilão dos imóveis.

E rogou uma praga: “Eu sou um homem de Deus e estou ali para ajudar os pobres e os doentes. Mas aqueles que estão me caluniando têm filho, não tem? Tem parente? Você acha que Deus não vai vir a meu favor e essas pessoas não vão apodrecer numa cama… de câncer? Você acha que isso vai passar em branco? Eu digo que eu sei, e vai pagar!”, afirmou.

 

Á esq. o Superintendente da Santa Casa, Adalberto de Jesus e à dir. Padre Flávio Fonte: Reprodução

Á esq: o então superintendente da Santa Casa, Adalberto de Jesus e à dir. Padre Flávio – Fonte: Reprodução

Os problemas da Santa Casa

Nos últimos meses os problemas da Santa Casa têm se intensificado diante da pandemia do coronavírus. Pacientes têm reclamado da qualidade do atendimento. É o caso da jovem  Elaine Karoline Moreira da Silva de 18 anos, que acusa a Santa Casa de negligência médica. Em publicação nas redes sociais, feita em junho, familiares da jovem contaram que ela já estava no  9.º mês da sua gestação. Após se encaminhar ao hospital com febre os médicos disseram que ela estava bem e pediram que aguardasse até a 41ª semana. No dia seguinte, ainda passando mal, ela retornou ao hospital, mas o bebê já havia ido a óbito.

Fonte: Reprodução

Fonte: Reprodução

O hospital lançou uma nota e um vídeo com explicações do médico responsável pela Maternidade do hospital sobre ocorrido. Mas alegam sigilo médico quanto às explicações sobre a causa da morte do bebê.

E não é o primeiro caso de negligência envolvendo a morte de bebês na Santa Casa de Sorocaba. Nas redes sociais diversos relatos se acumulam com dor e pesar. É o caso da dona de casa Evelyn Andrade que nos contou emocionada a perda da filha durante o parto em 2016.

Evelyn foi atendida na Santa Casa, já com 9 meses de gestação. Após ser verificado que não  haviam sinais que indicassem dilatação necessária para o parto, foi medicada para induzir o nascimento e, em seguida, enviada para casa. No mesmo dia passou mal com vômitos e retornou à Santa Casa. Ali recebeu a recomendação de uma enfermeira que se ficasse no hospital seria judiada e mal atendida e, por isso, era melhor que fosse para casa. E foi o que ela fez. No dia seguinte voltou a passar mal e ter crises de vômito, e retornou às pressas para a Santa Casa. Ali escutaram o coração do bebê e perceberam que ele estava fraco. Pediram uma cirurgia de emergência. Após aguardar um médico para realizar a cesárea – ele estaria em outra cirurgia – foi realizado o procedimento cirúrgico e após ele a notícia: o bebê teria nascido morto. O médico aconselhou Evelyn a fazer uma autópsia. E, com isso, depois de 9 meses esperando o nascimento de sua filha, ela voltaria para casa de mãos vazias.

Tempos depois Evelyn tomou coragem para procurar os seus direitos na justiça. A Santa Casa argumenta que a responsabilidade é da prefeitura, dado que na época ela era quem administrava a instituição.

Entenda o caso do leilão

O leilão ocorreu no dia 6 de abril de 2018 e o empresário Sami Raicher venceu duas das cinco concorrências na primeira praça, ou seja, pelo valor total avaliado pelo perito. Os dois imóveis se encontram em locais privilegiados do centro da cidade de Sorocaba. Em um há uma loja de utilidades para o lar, e no outro há um edifício comercial.

No entanto, após o fim do leilão, José Luiz Buch, advogado do banco Santander, mesmo com os dois lotes arrematados, ligou para empresa que conduzia o leilão, e tentou cancelá-lo.

O leiloeiro, Djalma José Herreira de Barros, se negou a cancelar, informando que isso é proibido por lei. Mesmo assim, o advogado do banco protocolou, pouco mais de 2 horas após encerrado o certame, uma petição solicitando o cancelamento, que ficou sob encargo do juiz Pedro Luiz Alves de Carvalho da 5ª Vara Cível da Comarca de Sorocaba. Nele, Buch informa que haviam retomado às tentativas de acordo entre Santa Casa e Santander.

Pedido de cancelamento do leilão.

No mesmo dia, o juiz acatou o pedido. O  problema, segundo Raicher, é que Buch omitiu do juiz que sabia da existência de um vencedor e isso teria induzido o juiz ao erro. Buch foi informado da situação pelo próprio leiloeiro, que deu depoimento certificando o repasse da informação.

“Que assim afirma o depoente após ter sido arrematado aludidos lotes, o advogado do BANCO SANTANDER, (exequente) Cr. José Luiz Buch, entrou em contato com depoente solicitando que fosse cancelado o leilão; que naquela oportunidade informou ao casídico em comento que não teria poder para cancelar o leilão, vez que havia dois lances, sendo que tal providência deveria por ele ser requerida ao Juízo.  Que dentro de tal dinâmica aos 06.04.2018, após finalização do leilão em torno das 10h15min da manhã, conforme previsão legal, os advogados do exequente tinha plena ciência que Raicher foi o vencedor em 1ª praça, de dois lotes levados a leilão”.

O juiz, depois disso, ainda mandou e-mail ao leiloeiro determinando o cancelamento e ele respondeu que não poderia cancelar, pois os lotes já haviam sido arrematados. Por fim o juiz não falou mais sobre a possibilidade de cancelá-lo.

Depoimento do leiloeiro na delegacia confirmando que avisou o advogado a existência de licitantes.

No dia 10, Buch, advogado do Santander, e o advogado da Santa Casa Pedro Augusto Marcello protocolaram duas ações. Na primeira, o representante do hospital pede o cancelamento dizendo que houve erro processual no leilão. O número de identificação de um lote estaria trocado e no outro dizia que havia uma preferência de credores, que não havia sido respeitado. Na outra, Buch pedia o cancelamento dizendo que o acordo havia sido feito antes da finalização do certame e que o leiloeiro não havia orientado o licitante corretamente.

Houve também uma petição do empresário João Sola, antigo fornecedor da Santa Casa. Sola reclamou que não havia sido comunicado sobre o leilão e, por esse motivo, ele deveria ser cancelado. Mesmo negando irregularidades, o juiz suspendeu o leilão.

No dia 16, Buch protocolou um acordo com data do dia 05/04. O documento destrincha o acordo. A Santa Casa pagaria R$ 2,4 milhões, com um sinal de R$ 450 mil e a diferença parcelada em 7 anos. A isso, somava-se os honorários de R$ 300 mil para o Advogado do banco.

Documento com datas divergentes

No recibo do sinal, protocolado no dia 25, mas com data do 19, não havia detalhamento do destino do pagamento, se fora feito depósito, transferência, ou o que.

“A pergunta que fica é: Se havia de fato um acordo no dia 5, por que não havia nenhuma menção a ele nas petições dia 10? E ao invés disso várias justificativas foram dadas para tentar cancelar o leilão a todo custo”, questionou Sami.

Denúncia de fraude

Raicher acredita que houve uma tentativa de encobrir uma fraude com as ações que foram protocoladas. Raicher é especialista em leilões e leiloeiro há mais de 20 anos. Ele denunciou haver crimes de formação de quadrilha, tergiversação, fraude à arrematação, falsificação de documentos, fraude a processo, enriquecimento ilícito, entre outros.

Fez então uma denúncia na 15ª delegacia de São Paulo e as partes foram intimadas a depor. O leiloeiro confirmou, em juízo, que o empresário paulista tinha sido o vencedor do leilão e o gerente do Santander disse que o documento tinha sido criado depois do leilão, informação negada pelo então superintendente da Santa Casa, Adalberto da Silva de Jesus.

Apontando indícios de fraude, o delegado Rafael Augusto Ferreira Cocito pediu quebra do sigilo bancário dos envolvidos. Na sequência, porém, o promotor Salmo Mohmari, pediu o arquivamento, alegando inconformismo do arrematante.

Raicher protocolou denúncia na OAB. O processo foi protocolado na capital e remetido à Sorocaba, no 9º Tribunal de Ética e Disciplina, e lá permanece.

O que dizem os envolvidos

A Santa Casa enviou uma nota à nossa reportagem. Nela eles enviaram um demonstrativo com os valores do acordo com o banco Santander e o prazo para pagamento. Com relação aos pagamentos disseram que estão trabalhando para que ocorram o mais rápido possível. E afirmaram que não há qualquer condenação da atual gestão sobre erro médico.

Raicher afirma que irá até o fim até provar na justiça que isso que eles fizeram é uma manobra ilegal, pois qualquer documento criado depois do leilão é crime tipificado na legislação que rege os leilões judiciais.

“Acho inadmissível o lobby religioso com às instituições, sou judeu, se fosse uma sinagoga, um hospital e banco da minha comunidade, seríamos taxados de judeus mercenários”, conta.

O caso está hoje no STJ. A advogada de Sami Raicher, Roberta de Bragança Freitas Attié explica que foi feito um agravo de instrumento, pois já havia um pagamento, e esse agravo permanece em andamento no STJ, como recurso especial e que sequer houve julgamento.

“O agravo não é contra a santa casa, nem contra o banco, mas contra a decisão do juiz, que suspendeu o leilão depois que tinha a arrematação”, explica.

Os imóveis, motivo da disputa, continuam alugados com fins comerciais, a espera do fim dessa interminável novela.

Leia a resposta da Santa casa na íntegra:

Resposta da Santa Casa

 

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