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Queimadas nas florestas brasileiras: Análise de dados mostra que valores estão dentro da média.

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Incêndios são comuns nos diversos biomas florestais do planeta e podem ter origem humana ou natural, podem ser danosos à natureza ou necessários ao meio ambiente. As florestas brasileiras sempre conviveram com o fogo, apesar do súbito interesse midiático sobre o tema e da significativa politização em torno dele.

Números absolutos lançados ao acaso ou dados comparativos pinçados a dedo são úteis para criar alarde, mas não são úteis para ajudar a compreender honestamente a questão. Desde janeiro de 2019 houve cerca de 170 mil focos de queimada na Amazônia: Esse  é um número excessivo ou dentro da normalidade? Houve um aumento no número de focos em comparação aos anos de 2019 e de 2018: este aumento é um fato esperado ou uma tragédia apocalíptica? A chegada de Jair Bolsonaro ao poder acompanhou um aumento global do número de focos em relação aos números observados nos períodos de Dilma Rousseff e Michel Temer: há uma relação de causa e consequência entre os dois eventos?

Para responder a estas perguntas, buscamos comparar os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) no portal do Projeto Queimadas. Comparamos as variações em diferentes dimensões: quanto ao tempo, escolhemos os anos de 2003 a 2020, que cobrem os períodos completos dos últimos 4 presidentes. Quanto ao território, procuramos pelos números para toda área nacional e pelos números específicos de cada bioma brasileiro. Consideramos que seria relevante comparar os dados brasileiros com os dados de nossos vizinhos sul-americanos, também disponibilizados pelo INPE. 

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) monitora desde 1998 os focos de incêndio florestal e queimadas agrícolas no país. O monitoramento é feito por meio de imagens de satélite. Através do portal do Programa Queimadas pode-se comparar a evolução dos eventos ao longo do tempo. A comparação pode ser feita para todo o território nacional e para cada um dos estados, biomas e regiões brasileiros. É possível também acompanhar os dados de outros países da América do Sul. 

Embora queimadas e incêndios florestais não sejam novidade, o assunto dominou o debate público no final do inverno passado e retornou à tônica no final deste inverno. Uma busca pelo Google Trends mostra que nunca se falou tanto de “queimadas” quanto nos dois últimos finais de inverno. Também no âmbito político internacional o tema ganhou relevância: recentemente o candidato democrata à sucessão presidencial dos Estados Unidos, Joe Biden, ameaçou o Brasil com sanções econômicas, usando as queimadas florestais brasileiras como motivo.

O aumento do interesse popular e político sobre o tema revela um agravamento na situação brasileira? Os dados mostram que não. Embora seja fato que o último inverno foi o pior da história recente do bioma Pantanal, um análise mais ampla dos dados revela um estado de normalidade geral tanto para o ano de 2019 quanto para o ano de 2020.

Optamos aqui por usar os dados de focos ativos para todo o território nacional e para os 6 biomas, e apresentar como foram os períodos de 01 de janeiro a 30 de setembro de cada um dos anos desde 2003, cobrindo as eras Luiz Inácio da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Os anos finais do governo de Fernando Henrique Cardoso foram os anos de implementação do sistema, e por isso os excluímos da comparação. Confrontamos também os dados brasileiros aos dados de nossos vizinhos na América do Sul.

FOCOS DE QUEIMADAS EM TODO O TERRITÓRIO NACIONAL

Durante 2019 e 2020 o INPE contabilizou 358 091 focos de queimada em território nacional, este número se soma aos 3 834 545 focos identificados pelo mesmo INPE entre 2003 (primeiro ano do governo Lula da Silva) e 2018 (último ano do governo Michel Temer). A média anual entre 2003 e 2017 ficou em 239 659 focos. O ano de 2019, primeiro ano de Jair Bolsonaro, teve 197 632 focos, um número abaixo da média, portanto.

Se considerarmos apenas os períodos de 01 de janeiro até 30 de setembro de cada um dos últimos 18 anos, tivemos 2 868 323 focos de queimadas desde 2003. A média entre janeiro e setembro é de 159 351 focos. Em 2019 foram 143 734 focos e em 2020 foram 160 459. Deste modo, temos os números dos dois anos muito próximos à média anual para o período.

FOCOS DE INCÊNDIOS EM BIOMAS

O portal do Programa Queimadas do INPE também permite a comparação dos focos que tenham ocorrido especificamente em cada um dos seis biomas brasileiros: Cerrado, Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa. Em 2019 os focos de incêndio na Amazônia ganharam as manchetes de jornais e o debate público, já em 2020 foi a vez do Pantanal se tornar o centro do debate. Comparados isoladamente, alguns biomas enfrentaram mais focos até setembro de 2020 do que nos mesmos períodos dos anos anteriores, outros tiveram queda. Veja o número de focos em cada um dos 6 biomas em 2020 e a comparação com a média dos anos anteriores:

COMPARAÇÃO COM DEMAIS PAÍSES 

 Um dos filtros que podemos aplicar sobre os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais nos permite a comparação dos dados totais de focos de queimadas no Brasil com os dados de outros países do continente sul-americano.

Faltando 3 meses para o fim do ano e já encerrada a temporada de maior risco de queimadas (últimas semanas do inverno), o Brasil acumula 160 459 focos ao longo do ano. A média para o mesmo período é de 159 351. Por outro lado, alguns outros países da América do Sul estão enfrentando números bastante superiores às suas respectivas médias anuais.

A Venezuela já atingiu – em setembro – um número maior de focos que os observados em qualquer ano inteiro anterior. Faltando 3 meses para o fim do ano, as florestas geridas pelo governo de Maduro já contabilizam 34 900 focos de queimadas. O pior ano até aqui havia sido o de 2003, com 33 743 focos. 

A Argentina também apresentou os piores números da história se considerados apenas os meses iniciais do ano. Usando apenas os dados de janeiro a setembro como comparação, a média argentina é de 35 465 focos, mas em 2020 foram contabilizados 62 034. Em 2003 haviam sido 57 257.

Em matéria sobre o assunto, o portal especializado Clima Info afirma que “A mesma seca que está impulsionando as queimadas no Pantanal também está causando incêndios florestais históricos no norte da Argentina, na região do delta do rio Paraná” e explica que “Da mesma forma que no Pantanal, as queimadas no norte da Argentina também tem relação com o uso do fogo para limpeza de terrenos por parte de agricultores.” Quanto aos incêndios no Brasil, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classifica o atual período de seca no Pantanal como o pior dos últimos 60 anos. O Cemaden explica que com a queda nos índices de chuva a vegetação passa a ter menor resistência ao fogo.

O tratamento da imprensa nacional e internacional ao tema, entretanto, tem variado a depender do país afetado. Enquanto os incêndios na Argentina têm sido tratados como fenômenos eminentemente climáticos, os incêndios no Pantanal brasileiro tendem a ser apresentados como fundamentalmente políticos.

Exemplar é o caso do El País, que ao anunciar as queimadas na região de Córdoba, na Argentina, publicou o seguinte: “Os incêndios asfixiam o centro e o norte da Argentina: O país, que atravessa uma das secas mais importantes dos últimos anos, tenta conter o fogo que já afeta oito províncias”. Já em manchete sobre as queimadas no Pantanal, o jornal de Madri anunciou em título e subtítulo que: “Descaso no Pantanal e Amazônia ameaça negócios do Brasil enquanto Governo se isenta de responsabilidade: Carta assinada por oito países alerta para dificuldade crescente em manter negócios com o país e empresas de agronegócios se unem a ONGs para cobrar ações contra desmatamento amazônico”.

AFINAL, O BRASIL ESTÁ QUEIMANDO COMO NUNCA? 

Não: na verdade, quando comparados os dados dos diversos biomas brasileiros e dos diversos países sul-americanos para os últimos 18 anos, o que se observa que o está enfrentando valores dentro da faixa observada durante os últimos governos e muito abaixo dos piores anos da série.

Comparação entre os números de focos para os nove primeiros meses de cada ano no Brasil e no restante da América do Sul.

Os dados brasileiros em comparação aos de outros países da América do Sul têm semelhança nas curvas, indicando a necessidade de considerar fatores climáticos para compreender a variação dos eventos de fogo florestal ano a ano. Os aumentos ou reduções nos números de queimadas no Brasil tendem a ser acompanhados pelos países vizinhos.

O bioma Pantanal, especificamente, enfrentou em 2020 o seu pior ano e realmente o país como um todo teve uma relativa piora em relação aos números de 2018 e 2019, mas 2020 tem sido um dos piores anos da América do Sul em termos de incêndios florestais: o aumento tem sido atribuído a uma estiagem que afeta o continente e que teria provocado também queimadas acima da média em outros países, como Argentina e Venezuela.

Apesar de 2020 ainda não ter terminado, 4 dos 6 países de maior extensão territorial do continente já ultrapassaram a média anual de focos de queimadas. Brasil e Bolívia são exceções.

Apesar de 2020 ainda não ter terminado, 4 dos 6 países de maior extensão territorial do continente já ultrapassaram a média anual de focos de queimadas. Brasil e Bolívia são exceções.

A soma de 185 583 focos observados até setembro no restante do continente só não é superior ao valor observado entre janeiro e setembro de 2003, quando houve 191 156 focos no restante da América do Sul. Já quanto ao Brasil, o ano de 2020 foi o sétimo pior ano com relação ao número de focos, considerados os primeiros nove meses desde 2003. Esta é a sexta vez em 18 anos que a soma dos focos de queimadas no Brasil durante os nove primeiros meses não é superior à soma de focos nos demais países da América do Sul para o primeiro período.

Há queimadas nas florestas brasileiras, mas os dados observados em 2020 não destoam significativamente dos dados observados nos últimos 18 anos. O relativo aumento observado nos últimos 2 anos tem sido acompanhado de um aumento ainda mais expressivo nos demais países do continente, que enfrenta uma estiagem severa.

 

 

 

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